sábado, 1 de setembro de 2018

Adenda à Memória Paroquial da Pederneira

Em Setembro do ano passado (2017) publicámos aqui as Memórias Paroquiais da Pederneira, datadas de 1 de Julho de 1759, assinadas pelo vigário Ignácio Barboza de Sá.
Esse documento (as perguntas e as obrigatórias respostas) denota um claro, e inequívoco, propósito. 
O conhecimento/descrição do território, o número de habitantes que por ali viviam/habitavam, trabalhavam, entre outros assuntos, como o número e as condições de conservação dos espaços eclesiásticos e por aí adiante.
Na resposta Nº 20, para o caso da Pederneira, o vigário responde que “não houve ruína alguma e que só foi aterra a torre do relógio do Paço do Concelho". Isto como consequência do terramoto de 1755.
Nada refere sobre o eventual falecimento de alguma pessoa, nem a ruína de alguma outra casa, sem ser as de tipologia eclesiástica ou administrativa, conforme se infere na resposta ao quesito.
É, também, certo que as respostas foram dadas, para o caso da Pederneira, quase quatro anos após o acontecimento e que nesse intervalo de tempo a memória poderá ter "falhado" no relato das consequências de tão brutal tragédia.
Parece que foi isto que aconteceu na Pederneira, não ficando registado nas Memórias Paroquiais, para memória futura, qualquer outro acontecimento.
Em Novembro de 1755 o padre da Pederneira, António de Abreu Vicente Coutinho, na sua função de registar os que faleciam, assim como os que eram baptizados ou casavam, não deixa de mencionar a causa da morte de duas irmãs, uma maior de idade e outra menor.

Refere o registo:

«Em o primeiro de Novembro de mil sette centos e sincoenta e sinco se enterrou na Igreja Eugénia da Trindade filha mayor, e Anna menor ambas filhas de Jose Nunes de Sam Pedro e de Thomazia de Sam Jose desta villa; e morrerão de repente nas ruinas de huma caza que cahio por causa do Terremotto [assinatura do padre]» *

Quatro anos após o acontecimento o vigário da Pederneira nada relatou sobre estas duas mortes, não se esquecendo de mencionar a queda da Torre do Relógio.
Se assim parece, poderemos levantar algumas questões básicas.
Terá a torre do relógio permanecido em ruína alguns anos, pelo menos até ao tempo em que o vigário escreve a resposta ao quesito?
Não deveria o padre verificar nos registos de óbito se tinha acontecido alguma morte directamente relacionada com o terramoto?
Em quatro anos esquecem-se muitas coisas, nem se obriga o vigário a saber o que no passado aconteceu mas, para que conste, na Pederneira, e por causa directa do terramoto de 1 de Novembro de 1755, nesse mesmo dia faleceram duas pessoas daquela localidade. 
Não fosse o registo paroquial, ficaríamos, para todo o sempre, com a ideia que nada aconteceu, além do descrito na resposta do vigário Ignácio Barboza.

*ADLRA - Livro de óbitos da freguesia da Pederneira, 1755, f. 138v.




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