sábado, 5 de janeiro de 2019

A pedra da "Panela"


Quantas histórias esconde a “Pedra da Panela”? Muitas, com certeza.
Hoje, quase escondida pelas areias que as correntes predominantes de norte depositam a sul do Promontório, apenas deixa antever um pequeno vestígio da sua imponência.
Assente sobre outras pedras, permitia a passagem por baixo e, ali ao redor, pescava-se ao caboz, com os pequenos anzóis, um pouco de seda e uma cana que arranjávamos logo ali ao lado, na encosta, junto à Fontinha, entre outras brincadeiras.
Uma dessas histórias, contando a minha, passou-se num fim de tarde de verão há muitos anos, décadas, com um polvo branco que parecia estar a “descansar” em cima de uma pedra, mesmo ao lado da pedra da Panela.
O polvo, sossegado que estava, chamou a nossa atenção, a minha e a do meu amigo de infância, Luís Estrelinha, e sem grandes hesitações lá agarrámos o polvo.
Era pesado e grande. Nós, que não devíamos ter mais de 11/12 anos viemos com o polvo a “arrejar” pela areia e, quando passávamos pela cabana onde se tiravam as fotografias, localizada na zona onde hoje se encontra o São Miguel, ouvimos alguém a chamar:
- Ó miúdos.
Pensámos se seria connosco, e era mesmo.
- Diga.
- Esse polvo é vosso? Querem vendê-lo?
Olhámos um para o outro e decidimos subir a escada de madeira que nos guiava à entrada desse barracão de madeira, o barracão das fotografias do cavalinho, dos cenários, da magia que hoje são as fotos ali tiradas, quando saem do buraco do tempo e resgatam a memória de tempos passados.
- Dou-vos cinco escudos pelo polvo.
- Cinco escudos!?!? Olha que é dinheiro.
Olhámos um para o outro e entre a trabalheira de arrastarmos o polvo até às nossas casas, que ainda eram longe, decidimos fazer o negócio.
O senhor pagou com duas moedas de vinte e cinco tostões e lá viemos todos satisfeitos. Certos que o esforço tinha compensado e que as nossas mães, que a essa hora já deviam andar na rua a gritar o nosso nome e a chamar aqueles nomes que proferiam, não por maldade, mas porque era habitual, e mordiam a mão com vontade de nos “estrafegar”, palavras delas.
O facto é que chegámos a casa, ou antes, cada um para a sua. O que aconteceu em casa do Luís não sei. Mas na minha foi o cabo dos trabalhos.
Além do ralhete, por ter chegado já com o sol posto, em calções, sem camisa, negro do sol, cheio de areia e com os pés negros de andar descalço, tomei banho de água fria com uma mangueira bem no meio do quintal. E nem piei.
O problema foi quando lhe dei os vinte e cinco tostões e lhe expliquei a razão de os ter.
Nem vale a pena entrar em pormenores, mas foi até hoje, foi uma ensinadela daquelas que não se esquece.
Não satisfeitas, ainda foram ao Sr. das fotografias perguntar se não tinha vergonha por comprar um polvo daquele tamanho por cinco escudos!!!

O mais grave, viemos a saber depois, é que o polvo tinha dono!

Foto: Carlos Fidalgo (05-01-2019)


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